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Maria Dorothea Joaquina de Seixas: a musa da Inconfidência Mineira.
Postado por Alexandre Sanchez Ibañez em 11 setembro 2009 às 22:00
Postado por Alexandre Sanchez Ibañez em 7 agosto 2009 às 19:44
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CONTATOS COM O AUTOR:
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MARIA DOROTHEA A MUSA REVELADA
História da mulher que inspirou o mito "Marília de Dirceu"
APRESENTAÇÃO

Lira XXVII
"Alexandre, Marília, qual o rio,
Que engrossando no inverno tudo arrasa,
Na frente das cortes.
Cerca, vence, abrasa."
(Thomas Antonio Gonzaga, 1788)
Conheci a história e a obra Marília de Dirceu ainda menino em São Paulo, quando estudava no Ensino Médio. E nunca esquecerei como aquela maravilhosa história com seus quase 200 anos foi contada, apesar de eu nunca poder imaginar o quão distorcidamente ela me havia sido exposta, nem como eu acabaria de certa forma fazendo parte dela. Naquela época, utilizávamos a imaginação para penetrar com olhos regalados, nas fotografias e iconografias dos livros didáticos. Com uma pequena ajuda do professor, éramos levados a uma hipnose coletiva e guiados por uma espécie de túnel do tempo. Por isso, jamais esqueci aquele dia, quando meu corpo ficou presente na sala de aula e minha alma partiu rumo a Minas Gerais do século XVIII. Passados alguns anos fui estudar Sociologia, na esperança de encontrar outro mestre que me levasse à viajar por períodos da história, para que eu pudesse conspirar novamente com a imaginação e o passado. Mas o que vi foram as mesmices tediosas e as visões tendenciosas sobre a história. Nessa época eu já possuía um sonho; praticar o sacerdócio de lecionar. Formei-me e cedo comecei a dar aulas, tentando plantar, naquelas mentes juvenis, as mesmas sementes que me haviam sido semeadas anos antes fazendo com que eu me apaixonasse pela historiografia. Lecionei por oito anos praticando essa profissão com muito esmero e carinho, mas o desejo de busca pela história levou-me a sair do país para estudar e empreender novas experiências. Então, com a pretensão de complementar meus estudos, fui para Europa. Mas por razões alheias a minha vontade, estudar no Velho Mundo não foi possível.
Mesmo assim, aproveitei para conhecer museus, templos, palácios, monumentos, castelos e principalmente para respirar um pouco dos ares que a cultura antiga propicia e que tanto namorei através de antigos livros didáticos. Afinal de contas a história havia me provado que o mundo sempre pertenceu àqueles que ousaram conhecer outros lugares, novas gentes e outras culturas. Além do mais, eu não pretendia passar por uma existência cotidiana e deprimente, como aqueles que passam pela vida dentro de um mundo limitado. Por isso resolvi concretizar o projeto mesmo não atingindo minhas expectativas iniciais. Ao menos, sabia que acrescentaria uma inesquecível experiência à minha vida. E assim foi.
Ao retornar para o Brasil foi com pesar e por necessidade que abandonei o magistério para seguir uma nova carreira convencionalmente voltada à empresa privada. Nesse novo intento resolvi mudar de formação e complementei estudos em Administração de Marketing no desejo de competir em um novo mercado de trabalho. Durante o curso, por intermédio de uma estranha e fugaz amizade fui apresentado a uma empresa cujo quadro de colaboradores eu viria a integrar pouco tempo depois, obtendo o sucesso planejado na minha nova empreitada. Foi nessa nova jornada que meu destino mudou, colocando-me novamente diante da minha antiga paixão de ginásio, a historiografia mineira do século XVIII, e surpreendentemente possibilitando o reencontro com Marília.
Por esse motivo, passei a crer que tudo pode mudar na vida a partir de um mero encontro. Seja ele premeditado ou casual, é sempre através dele que nossas vidas se transformam. Se fizermos um simples exercício de retroceder no tempo, em qualquer período da vida, seja numa situação que resultou em momentos de felicidade ou de amargura, perceberemos que por trás (bem lá detrás) a mudança foi motivada porque alguém que conhecemos durante o percurso, e que também nos influenciou; despertando algo em nós capaz de criar outras diretrizes. Nesse exato momento nossos propósitos tomam um rumo diferente do esperado. Afinal, não é assim quando conhecemos nossos melhores amigos ou quando se revelam também os inimigos? Ou quando se apresentam as grandes oportunidades e os grandes amores? De repente nos encontramos num turbilhão de situações que acabam nos direcionando rumo a inesperadas perspectivas. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, conhecedor desse mistério, nos brinda com o poema Quadrilha, que faz uma verdadeira metáfora desses encontros e destinos: "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Tereza para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com João Pinto Fernandes que não tinha entrado na história".
Portanto, podemos mudar de país, cidades ou amores, mas o caminho será sempre em direção ao encontro com uma nova vida. E o mais importante é termos a consciência de que tudo certamente mudará a partir desse novo encontro. Não foi assim quando Gonzaga conheceu Dorothea? Ou quando Tiradentes conheceu Silvério dos Reis? Ou mesmo quando o destino de todos se entrelaçaram? Especificamente na história de Marília e Dirceu, perceberão os leitores que muito dessa reflexão sobre os encontros estará em evidência. E serão esses encontros, ou desencontros, que se responsabilizarão pela rota que as vidas dos personagens em questão irão seguir. Afinal, o universo sempre conspirou para que determinados encontros ocorressem propositalmente no sentido de construir ou transformar histórias, assim como, destruí-las ou simplesmente modificá-las. A isso muitos chamam de destino, mas eu prefiro chamar de rota para a história. Enfim, a rota de outros acabará traçando também a conseqüência da sua. E como não poderia ser diferente em meu caso, a rota de outros também me levou ao encontro da minha.
Assim, em poucos anos fui oportunamente transferido para a cidade de Belo Horizonte, e foi paixão ao primeiro encontro. Nunca um paulista havia se sentido tão mineiro. Lembro ainda que, devido a essa nova proposta de trabalho, me via obrigado a viajar e conhecer muitas cidades do interior de Minas Gerais. Mas nenhuma me causou tanta comoção como a cidade de Ouro Preto, mesmo para mim, experimentado em conhecer algumas das mais belas cidades históricas da Europa; aquele encontro foi de contaminar a alma. Finalmente eu estava diante da cidade que fora o verdadeiro berço daquela história contada nos tempos de escola e que ali estava diante dos meus olhos; Ouro Preto, a antiga Vila Rica. Felizmente o destino havia conspirado a meu favor, colocando-me novamente diante daquela mítica cidade, e agora não mais através das imagens dos livros; mas sim presente, caminhando entre sua arquitetura, seus becos e suas gentes. E foi nesse momento singular que a inspiração traduziu minha emoção num texto que batizei de "Lei para caminhar em Ouro Preto, parágrafo único":
Lei para caminhar em Ouro Preto
§ Único:
Cidadãos, viajantes e turistas de Ouro Preto, apurem os ouvidos
Ao caminharem por estas ruas, vielas, igrejas, praças, pontes e fontes.
Que nossa imaginação seja uma conspiração com o glorioso passado,
Para que este nos possibilite ouvir os sussurros libertários,
As intrigas palacianas, os poemas revoltosos e as liras dos amores impossíveis.
Sejamos todos, de hoje em diante, embaixadores de Vila Rica.
Porque este chão que guarda os mistérios sagrados da historia brasileira,
Precisa que seja caminhado com o respeito e a admiração que este povo merece.
Que aqui foram plantadas as sementes da liberdade,
Da independência, da república e da democracia.
E também foi aqui que descobriram que existia um país chamado Brasil.
Inspirado e atraído fortemente por uma inexplicável energia, visitei a cidade dezenas de vezes nos anos seguintes, lendo com impulso voraz livros sobre Minas Gerais, sobre a Inconfidência Mineira, sobre Ouro Preto e sobre Gonzaga. Foi então que numa dessas leituras me vi relendo as liras de “Marília de Dirceu”, que desta vez me pareceram mais compreensíveis, aguçando minha curiosidade sobre a musa. Sedento por entender melhor aquela mulher e sua história, obcecadamente busquei cada vez mais sobre ela. Mas pouco encontrei sobre Marília, ou Maria Dorothea Joaquina de Seixas como é verdadeiramente o seu nome. O que encontrei foi muita coisa superficial, e quando não, obras simplesmente romanceadas. Percebi então que a história real se confundia com as meras histórias romanceadas, no entanto me vi obrigado também a beber dessas fontes para depois poder pesquisar e entender um pouco mais sobre essa enigmática mulher. Porém foi na poesia de Gonzaga que encontrei uma inexorável fonte sobre ela, porque as liras, que são a poetização do cotidiano, atestavam indicativos dos fatos corriqueiros que envolviam tanto o poeta como Dorothea encarnada em Marília.
Assim, após a leitura de vários outros textos intercalados com as liras, consegui precisar e entender melhor o cenário dos fatos através do surgimento de Vila Rica e seu cotidiano, para em seguida conhecer a vida dela em três fases distintas, fazendo com que descobrisse suas rotinas e a compreendesse um pouco mais em seu íntimo. No primeiro momento de sua vida, descobri Dorothea, a adolescente que serviu como inspiração a Gonzaga, vivendo os desvarios entre o idílio e o degredo. Na segunda fase, a mulher que serviu discretamente como cúmplice e amparo dos parentes mais próximos. E na terceira, e última, já como a senhora Dna. Maria Dorothea, a musa revelada que solitária e silenciosa, envelheceu amargurada, como testemunha viva da história brasileira e transformou-se definitivamente na mítica "Marília de Dirceu".
Iniciou-se a partir daí uma incansável trajetória de buscas que beiraram a obsessão. Assim, nos últimos oito anos, enquanto alguns aproveitavam a ociosidade dedicando-se a fugazes diversões, eu abria mão do tempo livre em prol de um atrevimento ainda maior, o de escrever sobre Marília. Estando impossibilitado de dedicar mais tempo às pesquisas por conta da minha atividade profissional, me vi obrigado a riscar do calendário pessoal quase todos os meus finais de semana, feriados, férias e horas vagas, sacrificando inclusive minha vida pessoal e familiar, em detrimento da musa. Durante esse período dediquei-me a ler e procurar testemunhas de tradições ou quaisquer informações relacionadas a essa personagem, colocando meu outro eu à disposição dela para esclarecer e resgatar todas as informações perdidas ou esquecidas na névoa do tempo. Quando me dei conta eu já havia me tornado o mais obstinado investigador da história de Maria Dorothea Joaquina de Seixas. E, à exemplo de Gonzaga, eu também havia sido enfeitiçado pelos encantos de Marília. A partir daí, me envolvi numa investigação audaciosa e solitária, não fosse pela colaboração de algumas pessoas que felizmente conheci durante o percurso e que envolvidas pelo assunto me auxiliaram na busca das escassas informações sobre ela.
Os documentos e fontes primárias são quase inexistentes, a tradição oral se confunde com a lenda. Por isso as dificuldades de pesquisa levaram-me a uma desconstrução histórica que partiu da embrionária historiografia de Minas Gerais até a Conjuração Mineira, numa abordagem de vários elementos que formaram o cenário político, social e cultural, em benefício do polêmico romance entre Marília e Gonzaga. Foi somente dessa forma que consegui precisar um pouco mais sobre a mulher por trás do mito.
Presumo até que alguns eruditos da historiografia mineira poderão dizer sobre este trabalho que se trata de meras especulações ou conjecturas de um autor obcecado por Marília. Mas eu prefiro afirmar que o trabalho é uma provocação com propósitos de despertar o interesse para o imaginário e o cotidiano do século XVIII em Minas Gerais. Mesmo porque, não pretendi seguir os padrões à moda acadêmica para que o leitor não ficasse entediado com as múltiplas referências numerais ou notas de rodapé, de modo a desconcentrá-lo da leitura. Além disso, procurei usar o máximo de imagens para ilustrar e satisfazer a curiosidade dos interessados. Também utilizei a didática da linguagem simples e acessível para que todos possam gostar da história de Marília, de Vila Rica e seus personagens. Enfim, tentei tornar a publicação o menos cansativa e complicada possível, para que quando folhearem este livro, possam as palavras contidas despertar a atenção do oportuno "rato de prateleira", independentemente de sua idade ou formação. Contudo, o principal objetivo foi de resgatar a memória dessa mulher singular e sem precedentes, que, apesar da pouca importância que a história lhe atribuiu, é sem sombra de duvidas, a maior entre todas as musas que a historiografia do Brasil conheceu.
Thomas Antonio Gonzaga teve a intenção de escrever uma obra poética, mas conseguiu muito mais, perpetuando a Arcádia brasileira. Eu tive o propósito de registrar uma merecida biografia sobre a musa, mas acabei escrevendo uma obra de referência sobre Marília e o cotidiano de seu tempo. E, se Gonzaga despretensiosamente acabou imortalizando Maria Dorothea em sua obra Marília de Dirceu, eu tenho a séria pretensão de que seja ela reconhecida e eternizada como a musa de Vila Rica; uma mulher que serviu como inspiração para que o Brasil deixasse também assinaladas suas marcas na poesia universal.
Se hoje as edições sobre Marília de Dirceu ainda ousam desafiar o tempo e o modismo, também espero que este dedicado trabalho seja o embrião de uma nova escola de estudiosos; a dos "Marilianos". Porque estudar a musa foi um trabalho mais provocante e sedutor, que estudar o poeta. Não que poetas desmereçam estudo, muito pelo contrário, mas é que dos poetas já conhecemos suas fontes de inspiração e a mecânica da sua criação. No entanto, sobre as musas pouco sabemos, nem mesmo por quais mecanismos provocam, desorientam, iluminam, encarceram e inspiram esses homens, a ponto de transformá-los no instrumento da mais divina forma de expressão escrita: a poesia.
Assim, numa noite de inverno em Ouro Preto, terminei este trabalho na esperança de conseguir satisfazer os interessados sobre o tema Marília de Dirceu e os assuntos que a cercaram durante sua laureada e enigmática existência.
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